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Nena e o Brilho Lento da Noite

Nena

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Nena e o Brilho Lento da Noite

Nena

Nena era uma menina de oito anos, de pele morena clara, cabelos castanhos lisos e olhos curiosos que não paravam de brilhar com perguntas. Ela morava numa casa simples, perto do Bosque Sussurrante, onde as noites cheiravam a madeira molhada e a segredos antigos. O crepúsculo chegava devagar, e com ele uma coisa que ela não gostava: o medo do escuro. Quando a luz sumia, as paredes pareciam ganhar vida, e cada sussurro do vento virava uma história de monstros invisíveis.

Na vila, as sombras tinham fama de serem brincalhonas. Nena gostava de desenhar constelações na janela e de ouvir as histórias da vovó, mas à medida que a casa mergulhava na penumbra, o peito dela apertava. 'E se houver algo atrás da cortina?' pensava, olhando para a lanterna que já não iluminava tudo. Ela tentou se convencer de que o escuro era apenas a noite empacotando o dia, mas o medo ainda chegava antes das perguntas.

Na primeira noite em que tudo ficou escuro, Nena sentou-se na beira da cama, abraçou o travesseiro e desejou que o sono chegasse sem sustos. O cheirinho de comida ainda vinha da cozinha, mas o silêncio da casa parecia ruidoso. 'Preciso de coragem', sussurrou para si mesma, e o quarto ficou tão silencioso que cada farfalhar da cortina parecia um segredo sussurrado pelo escuro.

Foi então que surgiu Luzinha, a vaga-lume que morava na planta junto ao parapeito. Ela piscou uma vez, duas vezes, e pousou na ponta do dedo de Nena, brilhando como uma pequena lanterna ambulante. 'Oi, Nena', disse Luzinha com voz de vaga-lume, 'sou Luzinha. Não vim te assustar; vim te acompanhar até o brilho da manhã'.

Logo apareceram dois novos amigos: Beto, o coelhinho curioso que vive no jardim dos vizinhos, e Sábia Sombra, uma coruja que parecia ter guardado todas as formas da noite. 'Posso ir junto?' perguntou Beto, batendo as patinhas na casa de madeira. Sábia Sombra ergueu as asas lentamente e respondeu: 'As sombras não são inimigas quando aprendemos quem as cria.' Nena sorriu pela primeira vez naquela noite: talvez não estivesse sozinha.

A ideia era simples: uma pequena expedição pela casa, começando pelo quarto, depois o corredor, e, por fim, a porta da frente. Luzinha brilharia suave para não ofuscar, e cada passo seria uma oportunidade de aprender algo novo sobre o escuro. A mãe, que ouviu o movimento, colocou uma luz difusa na mesinha de cabeceira e disse: 'Não há monstros nesta casa, apenas sombras que dançam. Respire comigo: inspire devagar, segure por um instante e solte com calma. Vamos tentar três vezes.'

Com as palavras da mãe ainda na altura dos ouvidos, o grupo começou a caminhada. No quarto, Luzinha foi a guia, iluminando as caixas e o estante onde guardavam livros de céu e de barcos. Beto apontou para o canto onde a cadeira de balanço se movia com a brisa, dizendo: 'Olha, Nena, é só a cadeira velha que dança.' Sábia Sombra mostrou como a penumbra desenha figuras: 'Vejo a forma de uma árvore, de um urso, ou do seu próprio rosto quando você sorri.' Nena respirou fundo, tentando perceber a diferença entre medo e curiosidade.

À medida que avançavam pelo corredor, o medo parecia diminuir, substituído por perguntas curiosas. 'Por que a escada faz rangido?', 'Quem acende as luzes quando a noite fica escura?', 'O que acontece se eu sussurrar para as sombras?' Cada pergunta transformava a escuridão em um desafio amável. Luzinha manteve o brilho suave, o suficiente para que seus olhos enxergassem sem se cansarem, e os amigos, com gestos meigos, ajudavam quando alguém tropeçava ou hesitava.

Quando chegaram à porta da frente, a casa parecia mais acolhedora do que assustadora. A mãe abriu a porta e apontou para o tapete verde que brilhava sob a luz noturna. 'A noite é o tempo em que as ideias visitam a gente', disse ela. 'E vocês são uma ideia muito corajosa.' Nena sentiu o peito se abrir; a cada respiração, o escuro perdia um pouco do seu tamanho. Luzinha piscou alegremente, Beto girou as orelhas, e Sábia Sombra — tão sábia quanto silenciosa — acenou com a cabeça em aprovação.

De volta ao quarto, a janela mostrava estrelas tremulantes. Nena deitou-se, ainda segurando a mão que Luzinha pousara como uma pequena lanterna viva. O grupo trocou algumas palavras sobre o que aprenderam: que sombras são apenas a forma de objetos que conhecemos; que o escuro não é vazio, é apenas o espaço onde a imaginação pode voar; que respirar devagar ajuda a acalmar o corpo. Nena fechou os olhos e praticou as tidas três respirações: inspirar, segurar, soltar, como se cada ciclo fosse uma vela que se acende dentro dela.

Ao final, adormeceu não com o medo perdido, mas com a certeza de que o escuro não era inimigo, apenas um espaço para descobrir coisas novas junto de quem a amava. O brilho de Luzinha permaneceu na cortina por alguns minutos, como um lembrete suave de que a noite não precisa ser temida quando se tem amigos por perto.